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gosto de versos e avessos //

Dia desses tive de comprar um diário novo e acabei pegando um daqueles de pontinhos, tão chique. Cheguei em casa, contente com os pontos, comecei logo a escrever, e me murchei inteira. Não devo ter selecionado direito e minha letra, gritante e escandalosa, não coube no entrepontos. No começo, respeitei, tentei seguir obediente, apesar de espremida, mas eu sofria para acontecer e já não me pude ver no lugar onde costumo ser mais eu. Não aguentei uma página, abandonei logo as diretrizes e fiz de duas linhas, uma minha. A verdade é que foi uma tristeza: sempre vi graça nos…


Uma mulher foi violada. Oito e meia da noite, quase claro ainda, não longe daqui. Chegando à porta de casa, de fones no ouvido, agredida assaltada e violada. Ando muito a pé, ando muito de fones. Minhas pessoas falaram: tenha cuidado. Por ser raro e recente, algo paira no ar, eu redobro meus atentos, tiro a quietação, e me lembro da dor feminina. Liberdades tomadas me entristecem muitíssimo. Até quando tratamos sintomas? De repente, estamos todas despertas do pavor só vindo a nós: constante, aterrorizante. Cruel, por encostar exatamente no lugar do prazer, invadindo, distorcendo, corrompendo… … … … ……


Escrevo nas frestas. Se me dá 20 minutos, é o que faço caber meu devaneio, mas a verdade precisa de tempo para ele chegar. É a nitidez da água parada que reflete os traços do meu rosto, é quando me imobilizo, e encontro a mim mesma. Tenho aprendido o labor criativo, sei que esperar vir não rende e, nas minhas vontades, descobri a necessidade de puxar, de forçar a vinda. Com a cabeça sobreposta é mais difícil, eu sinto falta de espaços contemplativos. Eu sou um espaço contemplativo. Vivo nas hastes da janela refletidas na parede, e nesta altura do…


Depois de uns anos à procura sem afinco em lojas de segunda mão, minha amiga me deu um rádio que os pais dela tinham parado em casa. Daqueles antigos, com toca-fitas e pilhas das gordas. O som por aqui tem sido agora analógico, de qualidade curiosa, mas num desprendimento saudável do celular. A liberdade da tela, e mais: a liberdade da escolha. Não a de poder escolher, justamente a do contrário. Como libriana, tenho apreciado o impor que não me exige tomadas de decisão. Eu escuto música direto e, para ser sincera, não aguento mais abrir o Spotify e ficar…


Eu tenho o vício de escrever com o corpo. Utilizo os braços, os dedos, a língua, o esôfago para dizer as coisas que sinto. Já é entranhado no meu centro: toda vez que escrevo, caio na carne. Quando vejo, estou estudando anatomia e as funções do sistema digestivo, respiratório e para que serve a vesícula mesmo? Um dia hei de parar. A escrita é fluida, eu só aprendo, outras metáforas virão. Por enquanto, exploro a dimensão espacial de tudo nos lugares pertencentes de mim. Tento sentir através do meu corpo em vez do meu corpo sentir através do que sinto…


Começou no umbigo. Depois foi se espalhando, como uma ameaça, despertando a epiderme interna e dobrando os meios do meu centro. Era novembro no estômago. Voltei a sentir o que tinha passado, embora só agora tenha um certo passado. Mas de verdade: nunca passamos, vamos acumulando. Fica tudo aqui, na parte de dentro, nos compartimentos do corpo: piadas na vesícula, quedas no fêmur, zangas no dedo indicador e frustrações no lóbulo esquerdo. Vez outra, por estímulo ou sem motivo aparente, algumas luzes se acendem. Meu estômago gela, e eu volto pra novembro. Pra 2015, pra escola, pra cama da minha…


Bate quatro e meia, vou pro centro da minha sala. O lugar estratégico onde encontro um sol tangente, em joelhos e olhos fechados. Ali é lugar feliz. A borda da banheira não, ela me deixa triste, às vezes choro. Ao pé da janela é o meu favorito, quase sou o lado de fora. Parece que sei os lugares que me trazem. Conheço a posição que me ensonece mais rápido e tenho um lado favorito do sofá. Até o tenho tentado trocar, a ver se trago a árvore pela janela. Não sou tão nova quanto gostaria de ser. Tenho meus preferidos…


Lembro-me bem. Era noite de setembro, por volta das 3h da manhã. Eu e um espanhol falando de palavras. Estávamos na parte de fora do metro da Trindade e conversávamos, só. Há quanto tempo não converso só, com alguém não importante. Mas as palavras, lembro-me bem. Ele me disse que acha madura a nossa saudade. Na Espanha não é assim, ali a nostalgia não é bonita, é só triste, quase possessiva. Diferente do português, segundo ele. Eu penso nisso. Volta e meia, em hora banal, me vem essa ideia. Um olhar pra trás, pesado, melancólico, ao mesmo tempo, feliz do…


Me vi envergonhada. Uma vergonha tão pequena, tão minúscula, tão mesquinha. Pensando bem, acho que não quero falar sobre isso, tenho vergonha. Mas o acordo é não evitar o que se quer evitar, transparência. Espero, entretanto, não haver tantos leitores. Veja você: ainda vai a tempo de desistir. Talvez eu esteja a aumentar, se a vergonha era pequena, ela acabou de crescer. Afinal não é nada, desculpa, que vergonha! Agora ela vai parecer mais importante do que realmente é, não posso nem começar o texto de novo porque já vou na oitava linha. Aqui não há borrachas. Mas imaginem só…


Eu curto uma horizontal. Em remoto, tenho trabalhado muito essa angulação. Aulas, cursos, faculdade, ando alinhada à cama. Eu sou boa na horizontal. Fluo nas palavras, pode ser culpa do conforto, ou mesmo do fato de estar lisa e não haver quebras de um corpo obstruído. As ideias passam por tudo e me acessam, em vez de decantarem na perna e adormecerem nos dedos do pé. Uns meses atrás li Truman Capote dizer que era um escritor horizontal. Fiquei feliz. Foi das coisas que não se sabe que se pode. Na escola minha professora de matemática dizia que tínhamos de…

Flávia Six

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